O protagonismo das organizações negras na defesa dos arquivos: reflexões da primeira conversa do seminário internacional 

Por Jefferson Barbosa

O primeiro seminário internacional Constelações de Memórias Negras, da Casa Sueli Carneiro, evidenciou que as políticas de acervos e os debates sobre memória estão avançando no sentido de contemplar as populações negras , mas ainda necessita de políticas públicas. Na primeira conversa participaram Ana Flávia Magalhães, o presidente da Fundação Palmares João Jorge, a presidente da Associação Latioamericana de Arquivos Alejandra Ruiz, Justin Hansford do Fórum de Afrodescendentes ONU e a gerente de programas do Instituto Ibirapitanga Juliana Victoriano.

Fotografia: @eyes.grazi

Ana Flávia explicou o que é a plataforma Constelações de Memórias Negras, e o contexto da conexão entre as iniciativas voltadas para difusão de memória, por enquanto no Brasil, como frisou ela. “Constelações é para evitar o apagamento de centros de memória, como por exemplo o do Olodum“. A professora ainda reforçou que para além de pesquisa, arte, comunicação e educação, as iniciativas devem impactar a política.

Por meio dos acervos é possível conhecer trajetórias, para isso é necessário redes de cuidado e criação (como digitalização, formação de guardiões de memória  e políticas de fomento). Ainda que existam políticas públicas de memória, elas são insuficientes e podem gerar resultados inclusive de apagamento. Justin foi o primeiro a falar e lembrou da situação em seu país diante de retrocessos do governo atual dos Estados Unidos.  

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Juliana falou de como a agenda de trabalho do Instituto Ibirapitanga relaciona com a governança de memórias, processo que se deu a partir da escuta dos movimentos. “Quando a gente está falando disso estamos falando de quem tem legitimidade para guarda dessa memória, para narrar e para difundir, estamos falando de poder”, Juliana ainda destacou o papel da filantropia, sem deixar de mencionar o papel das irmandades e terreiros.

A memória negra é uma infraestrutura simbólica da democracia, e financiar iniciativas que combatam o esquecimento é uma decisão política.  

A presidenta da Associação Latinoamericana de Acervos, Alejandra Ruiz, lembrou do Congresso Internacional de Arquivos que estava acontecendo em Barcelona, na Espanha, e apresentou como tem sido o trabalho nos últimos 50 anos da comunidade arquivística iberoamericana. Relacionou a participação comunitária com alguns Objetivos do Desenvolvimento Sustentável como o 4, 9, 10, 11 e 16 que se relacionam com educação, combate às desigualdades, justiça, sustentabilidade e inovação e que são metas definidas pelas Nações Unidas.

Fotografia: @eyes.grazi

Ela questionou a ideia de neutralidade dos arquivos tradicionais e defendeu modelos mais inclusivos. Destacou que a arquivística hoje adota uma perspectiva pós-custodial, reconhecendo o arquivo como espaço de poder — e, por isso, deve respeitar as lógicas dos arquivos comunitários.  

João Jorge lembrou que esteve, em 1981, no espaço onde hoje funciona a Casa Sueli Carneiro, durante o Congresso de Culturas Negras das Américas. Ao lado de grupos como o Ilê Aiyê, reverenciou o legado de Sueli Carneiro.

Como presidente da Fundação Cultural Palmares, destacou revoltas como a dos Malês e a dos Búzios, além da tradição oral das ialorixás da Bahia. Essas memórias viraram enredos e músicas do Olodum. Para ele, são políticas vivas de memória afro-brasileira. Diante do apagamento nos monumentos, os blocos ocuparam o carnaval. Criaram também o Centro de Memória do Olodum, com cerca de 280 mil documentos digitalizados. O bloco, com 47 anos, já esteve em 47 países e mantém escolas em diferentes estados. A memória negra, destacou, também transforma a cidade, os nomes das ruas e os debates sobre arquitetura, agricultura, astronomia e matemática. 

Fotografia: @eyes.grazi

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