Por Felipe Brito
SÃO PAULO – A Casa Sueli Carneiro realizou no último dia 6 de maio, o lançamento da Biblioteca Circulante Eva Alves Carneiro, consolidando um novo espaço de preservação e difusão da memória negra na capital paulista. O evento reafirmou o compromisso da instituição com a democratização do acesso ao conhecimento a partir da produção intelectual negra. Além disso, foi realizado o I Seminário de Biblioteconomia: Biblioteca Circulante Eva Alves Carneiro que refletiu sobre o cenário atual das bibliotecas privadas e públicas, além do seu papel no fortalecimento de acervos literários e memoriais negros como espaços de acolhimento e formação educacional.
Legado

A inauguração ocorreu em uma data simbolicamente importante: o aniversário de Eva Alves Carneiro, mãe da filósofa e ativista Sueli Carneiro. A escolha do nome elucida o papel de Dona Eva na formação intelectual de suas filhas e toda família. “Bom, hoje é um dia especial para nós. A data de aniversário da minha mãe. É um momento de emoção e de homenagem. Homenagem a uma mulher que me obrigou a ser livre. Ela me impulsionou para os estudos, para liberdade. Ela me empurrou para fora de casa como uma mulher que fosse atrás da sua independência e da própria autonomia. Com essa biblioteca a gente exalta também o amor dela, o apreço pelo conhecimento, algo de tal ordem, que possibilitou com quem eu entrasse na escola alfabetizada por ela aos seis anos de idade”, destaca Sueli.
O compromisso de Dona Eva Carneiro com a educação estruturou o comprometimento de gerações da família com a emancipação das mulheres negras, como nos conta a filósofa. “Esse contexto familiar, momento carregado de emoção, dessas lembranças que são responsáveis pelas escolhas que eu, particularmente, fiz e minhas irmãs também, que buscam deixar um legado de liberdade autonomia para nossa gerações de mulheres, que minha mãe, embora não tenha conseguido realizar para si própria, transferiu como um legado para suas filhas”.
A biblioteca foi estruturada como o “coração da casa”, ressalta Natália Carneiro, diretora executiva sobre a importância da gratuidade e da acessibilidade do projeto: “Quem for pesquisar vai ter acesso a autores e autoras negras. São livros novos e disponíveis para consulta gratuitamente. “É a realização de um sonho profissional”. Não é possível conceber a Casa Sueli Carneiro sem uma biblioteca de circulação e que seja capaz de dialogar com a territorialidade a partir de uma perspectiva negra, afrocentrada e que promova autorias negras” explica a bibliotecária Ionara Lourenço – responsável pela Biblioteca Eva Alves Carneiro.
A iniciativa é direcionada para atender a região do Butantã e região visando alcançar toda diversidade de público que tenha interesse pelas obras disponibilizadas. Com um acervo inicial de 253 livros e 151 autores negros, a biblioteca destaca-se por sua curadoria afrocentrada, que atravessa áreas como Ciências Sociais, Humanas e Literatura.
Fernanda Diamant, uma das debatedoras do seminário, contou sobre sua relação com a Casa Sueli Carneiro – “eu sou uma pessoa dos livros, desde sempre. Tenho uma relação com essa casa que antecede o projeto da Casa Sueli Carneiro, o que me fez ter este interesse em contribuir e ter essa relação de fortalecimento de um acervo que já reunia obras importantes. E contribuir com os livros foi a forma que fez mais sentido para mim a partir de livros importantes publicados nos últimos anos e novas edições.”
Para Luana Carneiro, diretora de Legado da instituição, a democratização do acesso é fundamental, – “A Casa Sueli Carneiro realiza o lançamento da Biblioteca Circulante Eva Alves Carneiro como uma iniciativa derivada de seu próprio acervo, consolidando-o como instrumento ativo de circulação de saberes. A constituição de uma biblioteca circulante se constitui em um espaço de memória negra e reafirma o compromisso institucional com a democratização do acesso ao livro e à leitura, ao mesmo tempo em que potencializa o acervo como agente de difusão intelectual e cultural”.
Seminário de Biblioteconomia: Biblioteca Circulante Eva Alves Carneiro

“Criação, pontes e estantes: os agentes do livro negro”, fono tema da primeira mesa que reuniu personalidades do ramo para debater os processos de produção, circulação e leitura de obras de autoria negra no Brasil. Participaram a escritora Cidinha da Silva, Fernanda Diamant, da Editora Fósforo, com mediação de Fernando Baldraia, da Companhia das Letras.

Já na segunda mesa – “Espaços de acolhimento: a bibliotecária negra como referência”, houve reflexão sobre o pape do protagonismo das mulheres negras na criação de estratégias de consolidação do acesso, acolhimento e pertencimento na relação do público com as bibliotecas. Participaram Janaina França Melo, do Museu Afro Brasil; Lucineia Ribeiro, de Geledés – Instituto da Mulher Negra; e Suelen Camilo, do CEU Heliópolis e mediação de Ionara Lourenço, Bibliotecária da Casa Sueli Carneiro.
Funcionamento
Local: Sede da Casa Sueli Carneiro.
Endereço: Rua Gioconda Mussolini, 259 – Butantã, São Paulo/SP.
Dinâmica: O acervo está disponível para circulação. Os empréstimos são realizados exclusivamente de forma presencial, mediante cadastro prévio na sede da instituição.
Links úteis:
Livros disponiveis | Biblioteca Circulante Eva Alves Carneiro
Cadastro Carteirinha | Biblioteca Circulante Eva Alves Carneiro