Com presença internacional e formato híbrido, o evento reúne pesquisadores, ativistas e gestores de acervos do Sul Global para debater justiça epistêmica, políticas públicas e a preservação de arquivos negros como pilar fundamental da democracia.
SÃO PAULO – No dia 17 de novembro de 2026, a Casa Sueli Carneiro promove o 2º Seminário Internacional Constelações de Memória Negra: Insurgências em Defesa da Memória, da Democracia e da Reparação. O encontro será realizado em formato híbrido, com programação presencial no Armazém do Campo, em São Paulo, e transmissão internacional síncrona com tradução simultânea em português, espanhol e inglês.
O evento parte da premissa de que não há democracia plena sem a garantia do direito à memória, o que exige financiamento público contínuo, infraestrutura e marcos regulatórios específicos para a preservação de acervos contra-hegemônicos no Brasil e na diáspora africana.
“A população negra nunca deixou de produzir seus próprios registros, mesmo quando as instituições oficiais insistiram em desconsiderá-los. A provocação que colocamos neste seminário é fazer com que a preservação dessas memórias deixe de depender exclusivamente do esforço de quem historicamente precisou lutar para não ser apagado. Defender os arquivos negros é defender o direito de contar nossa própria história, mas também exigir do Estado e das instituições um compromisso concreto com a reparação”, explica Natália Carneiro, diretora executiva da Casa.
Tendo como referência a metodologia desenvolvida pela Casa Sueli Carneiro a partir da organização e democratização do acervo da filósofa e ativista Sueli Carneiro, o seminário propõe ampliar o diálogo internacional sobre a salvaguarda de acervos comunitários, periféricos e de movimentos sociais. Dentre as conexões transatlânticas e afrodiaspóricas, estão confirmadas as presenças de Glorian Sacha (Archivo Negro de Porto Rico), Mark Naison (Fordham University / Bronx African American History Project), Michelle Tisdel (National Library of Norway), Amira McLendon (Memorialize The Movement – MTM) e Lonnie Bunch (Museum Harlem).
No âmbito nacional, representantes do governo federal como a Ministra de Igualdade Racial Rachel Barros e Gabriela Grupp, Coordenadora-Geral de Memória e Verdade da Escravidão e do Tráfico Transatlântico de Pessoas Escravizadas no Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC), estão confirmadas. Entre as representações do terceiro setor e de organizações vinculadas à luta pela preservação da memória negra, estarão presentes Clicea Miranda (IPEAFRO), Almir Rosa (Museu Itamar Assunção), Angel Natan (Acervo Bajubá), Instituto Mãe Hilda Jitolu, Gabriela Abreu (Instituto Marielle Franco), Gilvaneide Santos (Casa Sueli Carneiro), Janderson (Rede de Acervos Afro-brasileiros), José Carlos Ferreira (ZUMVI), Lucas Almeida (Capela dos Aflitos), CEDENPA, além de outros convidados.
A iniciativa conecta-se diretamente à plataforma Constelações de Memória Negra, mapeamento vivo criado pela Casa Sueli Carneiro em 2021 para identificar e articular estruturas dedicadas à preservação do patrimônio intelectual negro. A plataforma reconhece arquivos guardados em casas comuns, comunidades de terreiro, bibliotecas comunitárias, quadras de escolas de samba e centros de documentação como uma infraestrutura de memória essencial, organizada em doze eixos de resistência que contrapõem o histórico apagamento promovido por instituições hegemônicas.
Programação e eixos de debate
A estrutura programática do seminário aborda quatro eixos centrais de discussão ao longo do dia:
- O Direito à Memória como Fundamento Democrático: Debate sobre como a preservação de registros das lutas antirracistas e feministas incide diretamente na reparação histórica e na justiça de transição. Mesa I: “Sem Arquivos Negros Não Há Democracia”.
- Metodologias Vivas e Formação de Redes: Apresentação de práticas de tratamento documental, descrição e leitura crítica desenvolvidas pela Casa Sueli Carneiro como ferramentas feministas e antirracistas de formação profissional e comunitária. Mesa II: O Acervo como Prática Feminista e antirracista: Processos de descrição, leitura crítica e acesso
- Políticas Públicas, Sustentabilidade e Infraestrutura: Discussão sobre o papel do Estado, de universidades e de fundações internacionais na garantia de recursos e editais para a sustentabilidade de acervos fora da custódia institucional tradicional. Mesa III: Financiamento, fomento e sustentabilidade de acervos comunitários e periféricos
- Tecnologia, Soberania Digital e Custódia Comunitária: Análise dos desafios de preservação digital de longo prazo, uso de softwares livres (como AtoM e Tainacan) e diretrizes éticas para a digitalização sem desapropriação comunitária do patrimônio. Mesa IV: Tecnologias livres e redes diaspóricas de preservação digital
Como desdobramento das atividades, o seminário produzirá um documentode incidência política e metodológica, incluindo a elaboração da Carta Internacional sobre Acervos Comunitários e Democracia (documento a ser entregue a órgãos governamentais e organismos internacionais), a publicação digital do Guia Prático de Gestão de Acervos Negros e Comunitários para cooperação e proteção mútua de acervos sob risco.
SERVIÇO
- Evento: 2º Seminário Internacional Constelações de Memória Negra: Insurgências em Defesa da Memória, da Democracia e da Reparação
- Data: 17 de novembro de 2026
- Horário: Programação ao longo de 1 dia
- Local: Armazém do Campo (Alameda Nothmann, 806 – Campos Elíseos, São Paulo – SP)
- Formato: Híbrido (presencial com transmissão virtual síncrona)
- Idiomas: Tradução simultânea em português, espanhol e inglês