Casa Sueli Carneiro oferece oficina sobre formação de acervos

A atividade visa ampliar o conhecimento sobre salvaguarda de itens pessoal ou institucionais mo baixo custo, técnicas adaptáveis e autonomia

Por: Felipe Brito

A criação de uma ferramenta prática para a preservação de documentos e memórias em diferentes territórios nasceu do desejo da Casa Sueli Carneiro de contribuir para a ampliação de acervos de pessoas negras.

Ao longo da construção do Acervo de Sueli Carneiro, percebemos que muitos dos materiais recomendados por especialistas da área de arquivologia eram pouco acessíveis e não correspondiam à realidade financeira de pessoas, famílias e iniciativas interessadas em preservar documentos, fotografias, reportagens e outros registros de suas histórias.

Foi a partir da experiência cotidiana com o acervo, que pensamos em uma oficina com materiais especializados que pudessem ser substituídos por soluções mais simples e acessíveis, preservando sua função. Um pincel japonês de cerdas macias utilizado para a higienização de papéis, por exemplo, pode ser substituído por um pincel encontrado com facilidade em papelarias; equipamentos específicos para a retirada de poeira de documentos podem dar lugar a utensílios mais acessíveis, como um aspirador nasal.

Esse processo deu origem a uma tecnologia social da Casa Sueli Carneiro: uma metodologia de preservação construída a partir da prática, da troca de conhecimentos e da adaptação de técnicas especializadas às condições concretas de diferentes territórios. Nossa intenção é deixar o conhecimento sobre preservação acessível e aplicável, sem depender de equipamentos caros ou de estruturas especializadas.

A estrutura do kit foi desenvolvida por Ionara Lourenço, bibliotecária da Casa, que assumiu o desafio de criar uma ferramenta simples, funcional e replicável. Ionara elaborou um primeiro protótipo, composto por quase 20 itens. Diante da inviabilidade financeira de produzir um kit tão extenso para distribuição em larga escala, o projeto passou por uma adequação metodológica. O foco foi redirecionado para a seleção de insumos de fácil acesso, baixo custo e grande utilidade prática.

“Eu pensei em itens de fácil acesso. Itens que a gente possa encontrar em quaisquer papelarias e casas de materiais de construção. Insumos básicos e de fácil manuseio para quem tem o primeiro acesso com o kit, mas que facilitassem, na prática, a proposta pedagógica da oficina.”

Desenvolvida desde 2022, essa tecnologia social articula o kit de preservação a uma metodologia de formação e compartilhamento de conhecimentos. Não se trata apenas da distribuição de materiais, mas da construção de autonomia para que pessoas e organizações possam identificar, organizar, cuidar e preservar seus próprios registros.

Ao transformar conhecimentos técnicos da arquivologia em práticas de baixo custo, replicáveis e adaptáveis a diferentes realidades, a Casa Sueli Carneiro busca ampliar as condições para que a preservação da memória negra não esteja restrita às instituições que dispõem de recursos especializados. A tecnologia parte do reconhecimento de que preservar documentos também significa criar condições para que pessoas negras e suas organizações participem diretamente da construção, do cuidado e da transmissão de suas próprias memórias.

Para contornar essa barreira econômica e garantir que a conservação preventiva seja uma prática viável fora dos grandes centros de pesquisa, a Casa Sueli Carneiro desenvolveu algumas soluções táticas de substituição:

  • Adaptação de ferramentas populares: Uma trincha comum de duas polegadas, adquirida em lojas de material de construção por um valor substancialmente menor, cumpre a mesma função de remoção suave de poeira e sujidades em livros e documentos.
  • Técnica e cuidado preventivo: Para evitar que a estrutura metálica da trincha arranhe papéis ou fotografias delicadas, a metodologia ensina o revestimento dessa área com fita crepe.
  • Transferência de autonomia: Nas oficinas de formação, o manuseio dos itens é acompanhado pela instrução técnica correta de higienização, garantindo que o aprendizado do gesto e o tato substituam a necessidade de equipamentos caros.

Essa abordagem dialoga diretamente com as diretrizes do primeiro Guia para Criar Acervo de Mulheres Negras, reforçando a premissa de que a preservação da memória não deve ser refém de orçamentos inacessíveis, mas sim guiada por rotinas metodológicas rigorosas, pedagógicas e adaptadas à realidade de cada território.

Laboratório de Memória Negra e a composição dos Kits

A oficina, inicialmente pensada para ser feita em momentos pontuais e em formato presencial, tomou outra dimensão quando incluída no projeto de mapeamento da Casa Sueli Carneiro.  Com o Laboratório de Memória Negra e Soluções Ambientais, o Kit de Conservação de Acervo foi consolidado como um recurso pedagógico e material para vinte e uma iniciativas, espalhadas em todos os biomas brasileiros. 

“Uma coisa é você ensinar na teoria e chegar na hora, quando você vai aplicar as técnicas,  lidamos com documentos que são diversos. Por mais que seja um livro, talvez o livro venha com características diferentes do que foi apresentado fora do ambiente da oficina. E quando você vai passar para prática, as pessoas têm dúvidas e aí, é preciso dedicar um tempo a mais para essas peculiaridades, e que podem acontecer, como rasgos, anotações atrás de fotografias que não estavam previstas. São as histórias que acabam vindo à tona a partir do manuseio” comenta Ionara.

Os itens foram escolhidos para cobrir as necessidades básicas de conservação preventiva, dividindo-se em eixos funcionais:

Proteção do documentalista e do acervo: Luvas vinílicas sem pó e máscaras de proteção, que evitam a contaminação dos documentos por oleosidade natural da pele ou poeira e protegem o pesquisador.

Higienização e limpeza superficial: Trinchas de 2 polegadas (ou kits de pincéis), flanelas brancas, borracha branca, lápis HB ou 6B para marcações reversíveis e aspirador nasal para a limpeza delicada de superfícies fotográficas.

Manuseio e intervenções precisas: Régua de aço de 30 cm, estilete, tesoura, espátula ou dobradeira (para dobras controladas e vincos), jogo de pinças para manipulação de pequenos fragmentos e folhas de papel sulfite A3 brancas para suporte e acondicionamento.

Ao disponibilizar o kit e a formação técnica correspondente, a expectativa é que os projetos e organizações parceiras se fortaleçam progressivamente como núcleos autônomos de documentação e preservação, sendo capacitados para custodiar suas próprias fontes e narrativas sem a dependência de grandes centros institucionais de guarda. Essa descentralização das práticas arquivísticas combate diretamente o epistemicídio, assegurando que a salvaguarda da pluralidade dos saberes, lutas e trajetórias da população negra ocorra exatamente onde ela se faz presente e é mantida: nos próprios territórios e comunidades. 

Ao aproximar os conhecimentos da conservação preventiva de ferramentas simples e acessíveis, a iniciativa amplia as possibilidades de cuidado com arquivos negros em diferentes territórios. Esse trabalho se fortalece por meio de parcerias, formações e trocas entre pessoas e organizações que entendem a preservação da memória como parte da luta por reconhecimento, reparação e continuidade das histórias negras. 

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