Por Natália Carneiro
Nesta sexta-feira (27), dia de Oxalá, Sueli Carneiro recebeu seu passaporte beninense. O documento formaliza sua condição de cidadã do Benin. O retorno ao país para retirar o passaporte consolida a titularização da cidadania concedida em dezembro de 2024.
A entrega do documento foi registrada pela equipe do documentário Mulheres Negras em Rotas de Liberdade, dirigido pela cineasta Urânia Munzanzu e produzido pela Acarajé Filmes, em coprodução com a Mulungu Realizações. A vinda da comitiva para o Benin contou com o apoio da Fundação Rosa Luxemburgo. Parte desse material passará a integrar o Acervo Sueli Carneiro.

Esta é a primeira vez que uma brasileira recebe o título de cidadania beninense como ato de reparação histórica. De acordo com os registros oficiais, Sueli preencheu o formulário de inscrição número zero para a cidadania.
A concessão da cidadania a afrodescendentes decorre de legislação recente do governo beninense voltada à reconciliação e ao reconhecimento das consequências da escravização. A medida tem impacto direto no Brasil, país que concentra a maior população negra fora do continente africano, e estabelece mecanismos formais de reconexão com territórios de origem.
“Sou grata à Urânia, às autoridades do Benin e à equipe do documentário por este momento. Não me interessa o lugar da exceção nem o título de ‘primeira’, mas a possibilidade de que esse gesto abra caminhos. Que muitas outras mulheres negras e pessoas negras brasileiras possam também acessar esse direito, não como concessão, mas como parte de um processo de reconhecimento e reparação histórica”, pontua Sueli Carneiro.
A formalização da cidadania de uma militante negra brasileira em um país africano recoloca em circulação debates sobre pertencimento, deslocamento forçado e reconstrução de vínculos históricos interrompidos pela escravização.
Ao receber o passaporte, Sueli lembrou de companheiros militantes:
“Esse é um sonho sonhado por muitos militantes da minha geração, consequência das teses panafricanas que abraçaram em suas vidas. Cito dois deles: o deputado Luiz Alberto e a saudosa Luiza Bairros, que, se aqui estivessem, não hesitariam em também requerer essa cidadania que restitui nossa condição de pessoas africanas”.
Para a cineasta Urânia Munzanzu, a dupla cidadania de Sueli representa a “materialização do sonho da militância negra no Brasil. É a memória de Luiza Bairros — que incansavelmente reivindicou esse direito à cidadania africana para afro-brasileiros — sendo honrada com a política de reparação histórica que nos é devida”.
Urânia destacou ainda a importância do momento para as próximas gerações.
“É a luta do Movimento Negro Brasileiro vencendo e deixando legado, e eu estou muito feliz em ter feito parte de tudo isso. Como diz o Ilê Aiyê, no samba de Rita Mota: ‘nosso sonho almejado já deu certo, eu vi palha com barro virar concreto. Nunca se curve, esse é o regulamento’.”
O retorno de Sueli ao Benin foi acompanhado pela amiga Conceição Evaristo e por Mirtes Renata, ambas participantes do documentário, que testemunharam esse momento e integram essa travessia. Em todas as etapas, Luanda esteve ao lado da mãe. Sueli convidou ainda a advogada Eliane Dias e a mim, Natália Carneiro, para integrar a comitiva. Também estiveram presentes Tricia Calmon, superintendente de Apoio e Defesa aos Direitos Humanos do governo da Bahia e Christiane Gomes, coordenadora de projetos na Fundação Rosa Luxemburgo.
A Casa Sueli Carneiro acompanha e registra esse processo como parte de sua política institucional de memória, compreendendo que documentar trajetórias de mulheres negras é uma responsabilidade ética e política. Preservar esse momento significa contribuir para que experiências historicamente silenciadas sejam inscritas, de forma consistente e acessível, nos arquivos públicos e privados.

Fotografia: @onawale__
Tratamento: @erikallan.raw