Por Felipe Brito
Entre os dias 22 e 28 de junho de 2026, a Casa Sueli Carneiro, localizada no Jardim Rizzo, em São Paulo, realizou a quinta edição de seu festival anual. Sob o tema “Em Legítima Defesa”, o evento promoveu um balanço potente de debates, oficinas, exibições audiovisuais e intervenções artísticas. No total da grade de programação desenvolvida diretamente na sede da instituição, a Casa entregou 19 atividades que articularam cultura, formação e política.

Um dos diferenciais desta quinta edição foi a consolidação das atividades autogestionadas que, para além das ações concentradas em São Paulo, semearam o legado e o pensamento de Sueli Carneiro por todas as regiões do país. Essas ações descentralizadas foram realizadas de forma colaborativa e ocorreram em Minas Gerais, Goiás – com duas ações realizadas, Sergipe, Espírito Santo, Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro, Ceará e Pará.
Essa nova proposta reforça o papel da instituição na conexão entre movimentos sociais, estendendo a metodologia do festival para contextos periféricos, acadêmicos e culturais em todo Brasil.
Como reflexo direto dessa mobilização física nos territórios e do engajamento com as pautas propostas, o alcance digital da instituição obteve ressonância a partir dos debates presenciais e das transmissões ao vivo: as postagens de cobertura, recortes de falas e as lives da programação oficial acumularam mais de 100 mil visualizações. Com este engajamento virtual, milhares de pessoas de fora da possibilidade dos encontros presenciais puderam acompanhar e interagir com o conteúdo em tempo real.

A abertura oficial, no dia 22 de junho, reuniu as curadoras responsáveis pelo desenho conceitual desta edição: Cidinha Silva, Ana Flávia Magalhães, Heloísa Pires, Luanda Carneiro Jacoel e Natália Carneiro. O encontro celebrou a ancestralidade e a pluralidade de perspectivas como caminhos para honrar e expandir o legado da filósofa Sueli Carneiro, que contou com a apresentação da Ocupação Cultural Jeholu com execução musical vocal de repertório afro-brasileiro. Um dos grandes destaques do festival concentrou-se nas rodas de debate. A mesa “Com fatos e ficção: expressões das disputas pela memória negra”, com curadoria e mediação de Ana Flávia Magalhães Pinto, historiadora e jornalista, propôs caminhos contra o apagamento histórico e contou com a participação de Andressa Marques Silva, coordenadora-geral do PNLL/MinC e escritora; Max Maciel, com participação remota, deputado distrital, ativista e escritor; Everton Rangel, antropólogo e professor da PUC-Rio; Iliriana Rodrigues, historiadora e coordenadora da Escola MASP, que contaram com intensa interação do público presente e on-line.
A programação de diálogos incluiu ainda a roda ativista “Comunicação em Legítima Defesa”, mediada por Natália Carneiro com a presença de Vitória Régia, Gênero e Número e Antonio Junião – A Ponte Jornalismo que discutiu democracia, inteligência artificial e os desafios do tempos atuais para a atuação do jornalismo ativista e antirracista. . Em “Lendo Sueli Carneiro”, com mediação de Vinaum, Vinícius Santana, recebeu a filosofia e a acadêmica Jéssica Kellen para analisar as conexões entre a produção intelectual e a ação política de Sueli Carneiro a partir de sua obra – Dispositivo de Racialidade, e a pluralidade de possibilidades práticas de enfrentamento ao racismo a partir do pensamento de Carneiro.
Para a diretora de legado e também curadora, Luanda Carneiro o V Festival expandiu a Casa Sueli Carneiro para novas fronteiras e relações com a comunidade do entorno e outros territórios – “Houve o diferencial das oficinas com número expressivo de inscrições. Outro ponto alto foi contar com a perspectiva das curadoras negras na diversidade das suas propostas e atuações e a intensidade com que se deu a relação com o entorno da Casa Sueli Carneiro, na relação com o bairro e a comunidade que se construiu a partir das ações. A programação deste ano permitiu com que vários coletivos que participam de projetos em andamento da Casa estivessem novamente conosco. O que nos trouxe a dinâmica de como as tecnologias sociais da Casa vão se desdobrando para além de São Paulo e fazendo conexões nacionais e internacionais”.

O festival mobilizou a comunidade em diferentes linguagens . Em se tratando das oficinas e encontros, a pesquisadora Layla Maryzandra, “Corpo-arquivos e arquivos negros” apresentou o sentido histórico e de memória familiar da sua relação com o ofício de trançadeira a partir da sua dissertação de mestrado, mas também como sua vivência tem interseção comum a vida tantas outras mulheres negras que tem no ofício de trançadeira um lugar de afeto e resistência. A cineasta e também pesquisadora, Bel Xavier apresentou a expografia negra a partir dos arquivos, da museologia, laçando olhar sobre a representação do negro nas artes e espaços de memória. Agnis Freitas, com o jogo performativo e educativo “Vozes do Tribunal Winnie Mandela”.
Os artistas plásticos e xilogravadores Denis Araújo e Fernando Mariano (coletivo Xiloceasa), coordenando a atividade “Cidade em Verso” e orientando os participantes na produção de impressões a partir de montagens com carimbos diversos, que resultaram em uma pequena exposição com simbologias afro-diaspóricas e palavras de ordem.
A relação entre o corpo, o cinema e a ancestralidade marcou presença com a instalação audiovisual “Eu me lembro”, fruto de parceria com alunos da UFRJ sob facilitação de Luanda Carneiro Jacoel, que também conduziu a partilha-performance “Kalunga Não-Dito”, que trouxe nos silêncios e travessias memoriais a construção da tese da pesquisadora a partir da sua relação com sua mãe, Sueli Carneiro. O festival exibiu ainda as obras audiovisuais “My Ray of Sunshine”, de Laís Andrade, Nós Migrantes – livro vídeo de Nilen Cohen e o curta autobiográfico “Além das Águas”, de Azizi Cypriano. O Festival também contou com as visitas mediadas – acompanhadas por Ionara Lourenço, bibliotecária da Casa Sueli Carneiro, que apresentou a biblioteca e demais espaços, com panorama geral das atividades gerais do festival.

A performance a partir da cena, do palco e das ruas foi debatida na Roda das Artes “Palavra Encarnada”, que teve curadoria de Luciane Ramos-Silva e reuniu o dramaturgo Jé Oliveira e a artista visual Juliana de Jesus a partir da atuação artística como corpo e territórios políticos.
De forma inédita, o Sarau ocorreu dentro das dependências da Casa. Com curadoria da escritora Cidinha da Silva, reuniu as intervenções artísticas da DJ Olivia de Lucas; Gabriel, crítico literário; Dinha, escritora e editora; Fabian Kassabain, comunicador; Geni Nuñes, escritora; Mestra Janja Araújo, capoeirista; Helena Silvestre, escritora; Marcelo Ariel, poeta; Moisés Patrício, artista visual; Patrícia Palumbo, jornalista e da escritora e editora, Tatiana Nascimento e a mestra de cerimônia Kimani para celebrar a potência artística negra com momentos de microfone aberto ao público.
O encerramento do V Festival, no domingo – 28 de junho, levou a programação diretamente para a Praça Laerte Gárcia Rosa, no Jardim Rizzo, estreitando os laços comunitários com foco no público infantil. Sob a curadoria de Heloísa Pires, Bel Carvalho comandou as “Rodas Literárias para Crianças”, trazendo elementos lúdicos do Bumba meu Boi e cantigas de infância. O festival foi finalizado com uma aproximação afetiva e ancestral na “Roda de Capoeira para Crianças”, conduzida pelo Grupo Nzinga de Capoeira Angola, consolidando o encontro como ferramenta viva de transformação social. “Vale ressaltar que o tema – “Em Legítima Defesa” foi abordado efetivamente em todas as atividades, proporcionando, com isso o diálogo a partir de pontos centrais para discutir a situação do país e ações ligadas a reparação, memória pensando a democracia e a cidadania, avalia Luanda.
Acesse as fotos feitas por @eyes.grazi e @drefilmes e as lives das atividades gravadas pela @terrapretaproducoes.